O espanhol Antonio Salas, que já se fez passar por skinhead, desta vez infiltrou-se em organizações islâmicas e tornou-se o homem de confiança de "O Chacal" Inscreveu-se em todos os cursos sobre terrorismo que encontrou em Espanha, deixou crescer a barba e começou uma terapia intensiva de bronzeamento, que incluiu doses industriais de sumo de cenoura. Ao mesmo tempo, empenhou-se no estudo da língua árabe, converteu-se ao Islão e passou a frequentar a mesquita. Fez-se circuncidar.
Ao longo de dois anos, entre 2004 e 2006, o jornalista espanhol Antonio Salas dedicou-se a criar Muhammad Abdallah, o muçulmano nascido na Venezuela e com raízes na Palestina. Encarnaria a figura até 2009, quando culminou a incrível investigação infiltrado em organizações terroristas. Na altura, já era o homem de confiança de Carlos "O Chacal", acusado da morte de mais de 80 pessoas. Uma história que agora conta no livro "O Palestiniano".
"Não foi só construir uma personagem, mas uma biografia", explica pelo telefone. "Não podia aparecer de repente em Março de 2004 sem justificar 30 e tantos anos de vida anterior." Por isso, passou meses a viajar pelo norte de África e Médio Oriente. Na Palestina fotografou a aldeia de onde seria originário. Em Barcelona pediu a uma amiga árabe para tirar um retrato com ele. "Precisava de uma justificação credível para querer ser um mártir. Então criei a minha mulher, uma vítima da ocupação israelita com uma morte violenta."
Mesmo pelo telefone, a voz do espanhol está distorcida. Antonio Salas é um pseudónimo. Desde que em 2003, lançou "Diário de um Skin", que o jornalista corre perigo de vida. O livro narra o ano em que se fez passar por adepto skinhead do Real Madrid e forneceu informação fundamental para o desmantelamento da organização neo-nazi Hammerskin em Espanha. Seguiu-se outra investigação infiltrado e novo livro: "Um Ano no Tráfico de Mulheres".
Primeiros passos Salas decidiu investigar as redes terroristas internacionais a 11 de Março de 2004, o dia em que o atentado reivindicado pela Al Qaeda causou a morte de quase 200 pessoas em Madrid. Esperava "entender as motivações" dos terroristas, diz, "compreender o mundo" em que se infiltrava. Sabia que ia ser difícil, só não imaginava quanto.
"Pensei muitas vezes atirar a toalha, não por medo, mas por frustração. Passavam os meses e os anos e não conseguia avançar", lembra. "Eu não sou muito inteligente, sou bastante estúpido e o estudo do árabe era dificílimo."
A persistência acabou por compensar. Na Venezuela, Muhammad Abdallah participou na gravação de comunicados terroristas, recebeu treino para a luta armada nos campos das FARC e ouviu confissões de homicídios. Sempre que possível, armado da câmara oculta. "No livro só conto o que está gravado e posso provar", explica. "Porque não posso perder tempo com discussões." Refere-se às acusações de inventar factos. Outros chamam-lhe apenas louco. Ele responde com centenas de cassetes gravadas.
Abdallah cruzou-se ainda com uma série de cabecilhas de organizações terroristas, incluindo o líder palestiniano Aiman Abu Aita, o tupamaru "Chino" Carías, o etarra Arturo Cubilla e Ilich Ramírez, o famoso Carlos, "O Chacal", protagonista de vários livros e filmes, incluindo a "Bourne Trilogy".
"O Chacal" está a cumprir uma pena de prisão perpétua em Paris, mas comunicava com ele pelo telefone. Abdallah afirmou-se como uma espécie de intelectual. Escreveu dois livros e dezenas de artigos sobre temas islâmicos. Um papel que o ajudou a evitar ter de cometer actos violentos - fronteira que assegura nunca ter cruzado. Acabou por ficar responsável pelo site de "O Chacal".
"Ele tinha muitas suspeitas sobre mim. Uma vez perguntou-me do nada, ''Em que direcção está Meca?''" Se todas as manhãs não se levantasse para orar não tinha conseguido responder-lhe, assegura. "Tens de viver a personagem. Por isso é que nunca fui apanhado", avança, lembrando as histórias de jornalistas espanhóis mortos durante investigações infiltrados.
Velhos hábitos Salas diz que tudo terá compensado se com este livro conseguir dissuadir algum jovem de se tornar terrorista. Entretanto já começou a criar uma nova personagem para a próxima investigação. Mas os seis anos na pele de "O Palestiniano" deixaram as suas marcas. Salas manteve a barba, não deixou de frequentar a mesquita, está integrado na comunidade muçulmana e continua a beber sumo de cenoura.
"O Palesteniano, de Antonio Salas, 2010, Planeta.
Fuente: http://www.ionline.pt/conteudo/94926-o-palestiniano-os-meus-seis-anos-como-terrorista---video

