Inicio

Neonazis

Entrevistas

Antonio Salas llega a Brasil DE VOLTA DO INFERNO

Antonio Salas llega a Brasil DE VOLTA DO INFERNO

Jornalista espanhol que passou um ano infiltrado entre os neonazistas fala de seu livro e dos momentos em que temeu ter o mesmo fim de Tim Lopes .

Durante o ano que passou disfarçado no meio da extrema direita nazista, o jornalista espanhol Antonio Salas (pseudônimo) por várias vezes esteve perto de ter o mesmo destino do jornalista brasileiro Tim Lopes, assassinado em 2002. Assim como Tim, que gravava traficantes de drogas em ação com uma microcâmera, Salas registrava em vídeo a rotina de ódio e violência dos skinheads de seu país.

Da investigação, resultaram o livro Diário de um skinhead (Editora Planeta do Brasil) e um documentário, exibido pelo canal Tele5. Nos dois, lançados na Espanha em 2003, ele esmiúça as relações de clubes de futebol, partidos políticos e grupos musicais com os neonazistas.

-Depois do livro, o fiscal geral do Estado pediu uma investigação sobre a Ultrassur (facção de torcida nazista do Real Madrid), a opinião pública se escandalizou e pressionou as diretorias dos clubes - contou Salas ao JB por e-mail. - O Barcelona proibiu suas torcidas radicais de irem ao estádio. A Guarda Civil fez dezenas de detenções e tive que testemunhar no tribunal.

Por conta das denúncias que fez, Salas não pode desfrutar dos louros de seu trabalho solitário e ainda recebe ameaças de morte quase diariamente.

- Acho que o mais importante foi a reação de dezenas, talvez centenas de jovens neonazi que fizeram contato comigo para dizer que deixaram o movimento após ler o livro. E isso é o que mais valorizo nessa investigação - diz o jornalista, que já havia se infiltrado antes em máfias do crime organizado, redes de prostituição e seitas fechadas. - Também recebo mensagens de pais, irmãos e namoradas de skins arrependidos, me agradecendo.

Não foi fácil. Antes de raspar a cabeça, colocar seu coturno e um casaco com símbolos nazistas, Salas fez uma imersão de três meses na literatura, na música e nos sites nazistas da Europa.

- A melhor medida de segurança que se pode adotar antes de uma infiltração dessas é conhecer profundamente a realidade, os hábitos, a ideologia e os gostos - ressalta o repórter, que decorou até letras de música.

Mesmo sabendo a lição, quando Salas se viu com uma microcâmera debaixo da roupa, em meio a centenas de skinheads bêbados no bar La Bodega, em Madri, chegou a acreditar que tinha feito uma loucura.

- Durante semanas percorri as ruas onde eles se reúnem para buscar lugares onde pudesse me esconder bem como rotas de fuga para o caso de ser descoberto - revela. - Nesse trabalho não se pode cometer erros.

Amizade com nazistas levou repórter ao divã

Envolvido atualmente com outra investigação, não revelada, desta vez na América Latina, Antonio Salas é enfático:

- Se te pegam com a câmera, não há escapatória e eu estava sozinho. O assassinato de Tim Lopes nos lembra de que o risco é real.

Ele recorda outro momento crítico, quando estava num carro com uma skingirl e ela, ao abraçá-lo inesperadamente, sentiu o volume de sua câmera debaixo da jaqueta.

- Tive sangue frio para convencê-la de que aquilo era um revólver. E precisei transar com ela ali mesmo para distrair sua atenção - conta. - Mas conheci o movimento skin feminino, que abomina aborto, homossexuais e casamentos entre pessoas de raças diferentes. Acham que tudo isso contribuirá para o fim da raça branca.

De acordo com Salas, dogmas como esse, acrescidos do ódio a negros, latino-americanos, árabes, judeus e sem-teto, formam o caldo de cultura de um movimento crescente.

- O racismo e o nazismo se alimentam do aumento da imigração ilegal - adverte o jornalista. - A cada dia, mais europeus que nunca foram racistas sentem medo de que imigrantes vindos da África e da Europa Oriental tirem seus empregos. O (político) fascista Jean-Marie Le Pen conseguiu usar esse medo dos franceses e quase se elegeu presidente.

Salas não esquece a sensação de poder que sentiu vendo o pavor das pessoas nas ruas quando saía em grupo:

- Isso é o que seduz muitos jovens. Mesmo tendo provocado o desmantelamento das duas maiores organizações neonazistas da Espanha (Bloody and Honour e Hammerskin), Salas precisou da ajuda de um psicólogo para fechar algumas feridas abertas durante a investigação.

Como, por exemplo, a frustração de testemunhar o espancamento brutal e covarde de dois jovens torcedores de uma equipe adversária por membros da torcida Ultrassur, do Real Madrid:

- Senti raiva, impotência. Tive a tentação de gritar por socorro, mas sabia que, se o fizesse, seria agredido e descobririam a câmera.

Outro tema de Salas com seu analista são os laços afetivos com dois dos skinheads com quem conviveu.

- Conheci suas famílias, virei um membro do clã - admite. - Mas um psicólogo me fez entender que eles não eram amigos de Antonio Salas, mas do personagem nazista que eu interpretava.

Marcelo Migliaccio

http://jbonline.terra.com.br/editorias/cultura/papel/2006/10/24/cultura2...