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"O Palestiniano" Antonio Salas...

"O Palestiniano" Antonio Salas...

Antonio Salas viajó por 13 países  como Muhammad Abdallah "el palestino"

A liberdade justifica um livro, ou dois, ou três? Para António Salas sim. Depois de «Um Ano no Tráfico de Mulheres» (Livros d´Hoje) e «Diário de um Skin» (Dom Quixote), o espanhol está de regresso com «O Palestiniano», editado pela Planeta. Desta vez, o jornalista infiltra-se nas redes do terrorismo mundial. Tudo começou depois do atentado em Atocha, em Madrid, há seis anos…

António Salas confessa que ainda não se desfez de Muhammad Abdallah, papel que assumiu nos últimos anos para entrar no terrorismo internacional. «Quando um infiltrado passa tantos anos metido numa investigação é inevitável algo ficar dentro dele, algo desse personagem que viveste tanto tempo. Ainda mais uma infiltração com a duração de seis anos… Suponho que demorarei algum tempo a recuperar a minha própria identidade», refere nesta entrevista concedida ao Diário Digital.

 

Porque resolveu infiltrar-se numa rede terrorista?
No dia 8 de Março de 2004, quando apresentava o meu livro anterior, «Um Ano no Tráfico de Mulheres» (Livros d´Hoje), todos os meus companheiros de imprensa perguntavam qual seria a minha próxima investigação. Três dias depois estava em Madrid quando ocorreu o atentado em Atocha, que me atingiu em cheio. Ficou claro que a minha próxima investigação tinha de ser sobre o terrorismo internacional.

 

E acredita que esta foi a sua infiltração mais perigosa?
Provavelmente foi a mais complexa, mais cara e perigosa de todas. No entanto, psicológica e emocionalmente, a mais difícil foi a minha infiltração na máfia do tráfico de exploração sexual de crianças e mulheres. Mas nesta fui obrigado a mudar de aspecto físico, de raça, de língua e de religião. Tive de reconstruir 30 anos da minha vida com outra identidade, a de Muhammad Abdallah, e conseguir que essa biografia fosse credível entre os terroristas. Numa infiltração não podes cometer erros. Se suspeitam de ti e descobrem que levas uma câmara oculta…

 

Resumidamente, quais foram as diferenças na preparação de cada uma das suas infiltrações?
Para «Diário de um Skin» (Dom Quixote) rapei o cabelo e dediquei-me uns meses a inscrever-me em revistas e web nazis, a memorizar as suas canções, a familiarizar-me com os seus locais, etc. Para «Um Ano no Tráfico de Mulheres» frequentei congressos feministas e falei com associações de luta contra a prostituição, com a polícia, etc. antes de visitar pela primeira vez um bordel e aproximar-me dos traficantes. Agora foi mais complicado. Tive de aprender árabe e estudar o Corão, viajei à Palestina, Venezuela, etc. para reconstruir a minha falsa biografia; aproximei-me de mesquitas e organizações de luta armada, tanto no Médio Oriente e Norte de África como na América Latina e Europa.

Viveu seis anos como o personagem de ficção Muhammad Abdallah ou foi o contrário, era «Antonio Salas» o personagem de ficção? Como viveu essa dualidade?
Na realidade ainda vivo essa dualidade… No princípio procurei viver a vida de Muhammad frequentando as mesquitas, trabalhando em meios árabe-venezuelanos ou mantendo as webs oficiais de Carlos, o Chacal ou de Hizbullah-Venezuela; já Antonio Salas cumpria os seus compromissos profissionais dirigindo a Serie Confidencial, participando nos filmes que se fizeram sobre os seus trabalhos anteriores e a promoção dos seus livros; ao mesmo tempo vivia o meu «Eu» real, um simples jornalista espanhol que procurava manter o seu trabalho com normalidade para não levantar suspeitas. Mas cedo se tornou impossível conduzir estas três vidas. Chegou um momento na investigação em que não dormia mais de três horas por dia e mesmo assim era impossível estar em todas as frentes. Tive de, num determinado momento, dedicar todo o meu tempo a ser Muhammad.

 

E já conseguiu expurgar Muhammad Abdallah de si?
Quando um infiltrado passa tantos anos metido numa investigação é inevitável algo ficar dentro dele, algo desse personagem que viveste tanto tempo. Ainda mais uma infiltração com a duração de seis anos… Suponho que demorarei algum tempo a recuperar a minha própria identidade.

 

Nesse período de transformação, o que foi mais complicado assimilar? A língua árabe? A sua cultura? Os ideais islâmicos?
No princípio não sabia nada sobre o Islão e a cultura árabe. Somente conhecia, e acreditava nisso, os tópicos, prejuízos e falsidades que muitos media criam, bombardeando e condicionando a nossa opinião. Mas quando descobri a cultura e os valores do Islão, na sua essência semelhante a qualquer outra religião, senti-me fascinado. Isso não foi um problema. Já o idioma... Não me considero muito inteligente e foi verdadeiramente esgotante aprender a ler, escrever e falar árabe. Mas isso era um requisito imprescindível para esta investigação.

E porque iniciou a investigação/infiltração na Venezuela?
Devido a várias razões. Quando realizei cursos intensivos de árabe no norte de África coincidi nas aulas com outros estudantes estrangeiros, franceses, italianos ou alemães. Notei que todos mantínhamos o nosso acento nativo ao falarmos árabe. Como acontece quando um inglês ou um francês fala português. Entendemos as suas palavras, mas sabemos que a sua origem não é portuguesa. Então deduzi que necessitava de uma justificação para o meu árabe com acento latino. E pensei em buscar essa origem num país que manifestasse uma política anti-americana, que me ajudasse a ganhar a confiança dos jihadistas. Ou seja, só podia ser Cuba ou Venezuela. Em 2004, 2005 e 2006 publicaram-se centenas de notícias e reportagens referindo o país sul-americano como una espécie de Meca do terrorismo internacional. Depois, quando me matriculei em todos os cursos sobre terrorismo em Espanha depois do 11 de Março, descobri a figura de Ilich Ramírez, aliás, Carlos, o Chacal. Ou seja, o terrorista mais famoso e perigoso do século XX resultou ser venezuelano e convertido ao Islão. Estava claro que a Venezuela tinha de ser um dos meus destinos.

 

A pergunta óbvia: que balanço faz da sua experiência? Há muitos pontos em comum entre o Ocidente e o Oriente?
Muito mais do que os que nos separam. Na essência, todos os seres humanos se preocupam com o mesmo: a família, os nossos seres queridos, o nosso bem-estar. E não importa qual é a nossa língua, raça ou credo. Basicamente todos temos e desejamos as mesmas coisas. No entanto, e porque o terrorismo e a guerra são dos negócios mais lucrativos do Mundo, os interesses políticos, económicos e geo-estratégicos esforçam-se por manter vivos o ódio e as diferenças.

 

Ou seja, não estamos diante de uma «guerra» religiosa, mas de interesses?
Quando comecei esta investigação acreditava que todos os árabes eram muçulmanos e que todos os muçulmanos eram terroristas, ao menos em potência. Mas quando comecei a viajar pelo Oriente Médio, pelo Magreb, etc. descobri que a verdade era muito diferente. Na Palestina, por exemplo, conheci personagens como Aiman Abu Aita, ex-líder das Brigadas dos Mártires da Al Aqsa. Para a minha surpresa, Aiman, como muitos outros membros da resistência palestina ou iraquiana, era cristão! Muitos desses chamados «terroristas» que na Palestina ou no Iraque combatem contra as tropas ocidentais lutam pela sua terra, não pela religião. Mas para a propaganda ocidental é mais conveniente considerarmo-los a todos «terroristas islamistas». E a luta é por interesse económico ou geo-estratégicos. A religião é apenas um álibi.

 

Onde todos falham?
Suponho que todos falhamos ao permitir que outras pessoas decidam o que devemos crer ou sentir e a quem devemos odiar e temer.

 

No livro demonstra que a violência é usada em nome do «bem» e que é vista pelos mais jovens com leviandade. Isso acaba por facilitar o «voluntariado»? Ou não?
Absolutamente, basta analisarmos quem são os heróis dos jovens dos nossos dias. Temos crescido com a ideia de que os «bons» dos filmes podem matar, mutilar e massacrar os «maus». O cinema, os vídeo-jogos e a televisão socializam a violência como algo compreensível e inclusive defendem a sua necessidade quando exercida contra os «malfeitores». O nosso exemplo já é seguido por produtoras de cinema, pela televisão, pelos comics, etc. no Oriente, onde se ensina exactamente isso aos mais novos. Só que para eles os «maus» são os ocidentais…

Portanto, compreende hoje o ponto de vista de um terrorista, as suas atitudes?
Não trabalho para nenhum meio de comunicação, linha editorial, serviço de informação, para ninguém, a não ser os meus leitores. Sou free lance. Portanto não tenho uma data limite para concluir uma investigação. E não dou como concluída uma infiltração até sentir que todas as minhas questões foram respondidas. Por isso acredito que hoje posso compreender a mentalidade de um terrorista, como antes aprendi a entender o que pensa, sente, teme ou deseja um skin, um traficante ou um proxeneta. Isso também me dá o direito de argumentar que eles estão manipulados pelos seus dirigentes, que estão equivocados nos seus argumentos. E, é claro, jamais, em nenhum caso se justifica a violência.

 

Há algum denominador comum que tenha encontrado no seio das organizações terroristas?

Embora as ideologias, credos ou justificações divirjam (e todas são falsas), coincidem em crer que uma fé ou uma política vale mais do que a vida humana. Quando matam pela primeira vez precisam de silenciar as suas consciências convencendo-se de que essas vidas inocentes eram um dano colateral lícito. Porque, caso contrário, não suportariam a culpabilidade. E a partir daí começa um caminho sem retorno, em que cada vez mais justificam actos terríveis: violações, roubos, torturas, massacres… Um caminho que apenas termina na prisão ou com a morte. Por isso é preciso ser muito estúpido para ser terrorista.

Um terrorista é, antes de tudo, um idealista?
Talvez no princípio, quando defende um ideal e se converte num activista, arriscando a sua própria vida, e não a de outros, por crenças políticas ou religiosas. Mas quando impõe esses ideais à vida de outros converte-se num miserável mal-nascido contra quem deve cair, sem piedade, todo o peso da lei, até que sofra na sua carne a mesma dor que tem causado. Caso contrário a sua pena não seria justa.

 

As ideologias são apenas uma justificação para a existência de grupos armados?
Uma desculpa miserável. Tenho conhecido grupos de extrema-direita e extrema-esquerda, ultra-católicos e islamistas, comunistas e nazis que colaboram no negócio do terrorismo. As ideologias são uma desculpa para justificar o que termina por se converter numa profissão.

 

Qual foi a principal surpresa ocorrida durante a infiltração?
Não sabia nada sobre terrorismo antes de começar esta investigação, assim cada passo que dava foi uma surpresa para mim. Descobrir líderes árabes a que chamamos terroristas islamistas mas que na verdade são cristãos, conhecer as alianças do Chacal, um ícone da extrema-esquerda, com os nazis, averiguar a origem da presença da ETA na Venezuela… Tudo foi novo e surpreendente.

Nunca temeu cruzar a linha entre a investigação e o crime, por exemplo?
Não, como não temi nos meus trabalhos anteriores. Tenho muito claro que nenhuma reportagem justifica um delito. Depois, se aspiras a que o teu trabalho termine nos tribunais não podes participar no delito que estás a denunciar. Se alguma vez vivesse o dilema de ter de cometer um crime ou uma simples agressão para continuar a investigação, simplesmente abortaria a reportagem.

 Do que viveu, arrepende-se de algo?
O êxito que tive com «Diário de um Skin» permitiu-me obter dinheiro suficiente para pagar toda a investigação de «Um Ano no Tráfico de Mulheres» sem necessitar de nenhum apoio. E o sucesso de «Um Ano no Tráfico de Mulheres» foi o que financiou «O Palestino». Por isso só devo lealdade aos meus leitores. E a única coisa que me arrependo foi a de ter sido tão ingénuo por acreditar que Google ou Wikipedia eram fontes jornalísticas lícitas. Perdi muito tempo, muito dinheiro seguindo pistas falsas que se publicam uma e outra vez em meios supostamente sérios.

 

Há algum momento ou situação que recorde em particular
Seis anos são muitas recordações… Recordo a última viagem à Palestina, passando secretamente a câmara oculta pela fronteira israelita; recordo o primeiro encontro com o Hezbollah no Líbano; recordo a espera por Arturo Cubillas, o etarra mais famoso da Venezuela; recordo o temor por falar pela primeira vez com El Chacal; recordo a primeira vez que segurei num fuzil, jamais tinha visto uma metralhadora ou um fuzil na minha vida, a não ser no cinema, até que acedo aos campos de treino…

As suas investigações justificam a sua perca de liberdade?
Confesso que, para um jornalista, é reconfortante ver o seu trabalho ter uma repercussão social. As detenções dos mafiosos que gravei vendendo seres humanos em Múrcia ou a condenação dos skinheads de Hammerskin com quem convivi infiltrado demonstram que este trabalho vale a pena. Mas isso são apenas efeitos colaterais. Se vires Os meus emails favoritos na minha página web (www.antoniosalas.org) verás centenas e centenas de emails de jovens que deixaram o movimento nazi depois de lerem «Diário de um Skin» ou miúdas que resolveram deixar a prostituição depois de lerem «Um Ano no Tráfico de Mulheres». Como jornalista que és, como eu, não acreditas que isto vale a pena?

 

Depois destes seis anos infiltrado, vê alguma luz ao fundo do túnel nas relações Ocidente-Oriente?
A explosão de uma bomba ou o rugido de um tiro faz muito mais ruído que os sussurros de uma oração ou um diálogo pela Paz. Por isso escutamos mais os violentos. Mas são uma minoria. A imensa maioria dos habitantes do Oriente e Ocidente clama pela Paz. No entanto, até que a nossa voz se deixe ouvir por cima das explosões, o ódio continuará a reproduzir-se como um cancro.

 

Texto: Pedro Justino Alves

Fuente: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=187&id_news=494026