O jornalista-camaleão que já se fez passar por “skinhead”e traficante de mulheres conta ao Ípsilon como se confundiu com um terrorista para escrever “O Palestiniano”. Nunca uma infi ltração jornalística tinha sido levada tão longe: Antonio Salas aprendeu árabe, converteu-se ao islão e fez-se circuncidar. Paulo Moura, em Madrid
Antonio Salas está de escuros e uma indumentária incomum, para parecer um cidadão comum. Ou pelo menos para não se parecer consigo próprio, seja lá quem ese for. A entrevista decorre a uma mesa indistinta de um indistinto café do aeroporto de Madrid. Tudo planeado para não levantar suspeitas. Antonio Salas tem a cabeça a prémio, a vida sempre em perigo. Aliás já não tem vida. Tem várias, sob vários nomes, nenhum deles o seu. Calado, tímido, à espera da primeira pergunta, tira do bolso um misbaha, o rosário islâmico. Percorre com os dedos as 33 contas, para rezar, invocar os 99 nomes de Alá ou simplesmente aplacar o nervosismo. “Sintome bem como muçulmano”, balbucia. “Ainda vou à mesquita”. A infiltração, que durou seis anos, terminou e está toda num livro, “O Palestiniano”, editado em Portugal pela Planeta. Salas está a construir outra personagem, para o trabalho seguinte.
Mas não deixou de ser muçulmano. “Foram anos de trabalho intenso. Além de tudo o resto, escrevi dois libros teóricos, tinha de manter o site de Carlos, etc. A certa altura, só dormía três horas por noite. Quando entrava na mesquita, eram momentos de paz. Como estar em casa”. Por isso continua a frequentar essa “casa”. E a rezar como um muçulmano. “Eles são carinhosos, não temem o contacto físico. Nós, se estamos num autocarro e alguém se aproxima, sentimos um incómodo. Os muçulmanos não. Ficam próximos uns dos outros, tocam-se”, diz Antonio.
Foi difícil deixar de comer carne de porco. (“Eu nem imaginava o quanto a nossa dieta é feita à base de carne de porco”). Deixar de fumar também não foi pacífico, com as situações de stress a que esteve submetido. Mas skins, chegava a beber vodka ao pequeno-almoço”. Quando se infiltrou entre os neonazis espanhóis, Antonio Salas tornou-se um deles. Rapou a que inspira o movimento “skinhead”, fazia musculação ao som das bandas ska e punk fanáticas do white power. Criou um “nickname” na Internet (Tiger88), e fez-se passar por um “skinhead” radical.

Escreveu o livro “Diário de um Skin” (Dom Quixote, 2009), que foi um “best-seller” em Espanha, e após cuja publicação dezenas de elementos do grupo Hammerskin foram Julgados e presos. A seguir, Salas decidiu entrar num mundo ainda mais perigoso: o dos traficantes de mulheres. Ganhou a sua confiança, assistiu a sórdidas reuniões de negócios, conheceu mulheres submetidas à escravatura, acabou por comprar, ele próprio, uma adolescente, em território espanhol. Tudo gravado em vídeo, porque Salas não dá um passo sem ligar a sua câmara oculta. “As coisas que tenho visto são de facto incríveis, e não me apetece ter de discutir com os idiotas que iriam sempre dizer que eu minto”, explica ele. “Aquilo que não gravei nem sequer escrevo”.
Um Ano no Tráfico de Mulheres” (Livros D’Hoje, 2008), entraram na prisão mais uns tantos criminosos. O próprio Salas colaborou com a polícia e com o tribunal na instrução dos procesos e no julgamento, tanto no caso dos skins como no dos traficantes de prostitutas. Esse sempre foi um dos seus objectivos. O outro, que preza ainda mais, skinheads” e prostitutas Também o conseguiu. “Recebi muitas cartas de tinham apercebido, finalmente, do absurdo das vidas que levavam. E isto só acontece porque elas sentem que eu as compreendo, que estou do lado delas”.

Daí a imimportância da infiltração a tempo inteiro, total. A aproximação ao tema da investigação não é hostil, é uma verdadeira aproximação – Salas tenta realmente ser um “skinhead”, ou um traficante, para os compreender, ver através do seu ponto de vista, sentir o que eles sentem. Isto implica uma filosofía humanista muito própria. Uma crença de que os seres humanos são essencialmente parecidos, e agem sempre de boa fé. É este o ponto de
partida, que a própria experiência das reportagens tem reforçado. “Até os skins possuem o seu lado bom. São muito leais, e defendem algumas boas causas, como os direitos dos animais. Depois têm coisas indefensáveis, como o racismo”. Até esas Salas tenta compreender, ainda que sem êxito. “Os meus livros são respeitadores. Não têm preconceitos, não condenam à partida. São uma espécie de diários de viagem”.
Al-Qaeda, missão impossível
É um trabalho que deixa sequelas. Na saúde mental e na segurança física. Ainda hoje, Salas recebe ameaças de morte por causa destes dois trabalhos. “O ódio vai-se renovando. Recebo insultos e ameaças dos ‘skins’, de miúdos que tinham dez anos quando eu estive infiltrado. Mas já lhes foi transmitido, ensinado quem são os inimigos. Qualquer jovem ‘skin’ gostaria de se poder gabar de ter dado uma facada no António Salas”. Por isso o jornalista vive na clandestinidade. Não aparece em público, não mostra o rosto. Mantém várias identidades, a cujas vidas precisa de dar seguimento – a verdadeira, que tem um emprego de fachada, como jornalista, a de Antonio Salas, protagonista de infiltrações jornalísticas que dá entrevistas com uma máscara ou apenas por telefone, com a voz distorcida, e a da personagem da infiltração em curso. Se algum destes homens for identificado com um dos outros, Antonio tem a vida em perigo.

Quanto à saúde mental, essa está sempre em risco. Após a publicação de “Um Ano no Tráfico de Mulheres”, o plano era fazer um tratamento psiquiátrico. Mas não houve tempo. Estávamos em Março de 2004 e, em Madrid, rebentaram bombas na estação de Atocha e em vários comboios. Os atentados mataram 191 pessoas e a primeira tese oficial foi a da autoria da ETA. Mas logo se descobriu quem estava por trás dos assassínios: os terroristas islamistas da Al-Qaeda. Antonio Salas não precisou de pensar muito: a próxima infiltração seria entre eles.
Era uma missão impossível. Nenhum ocidental alguma vez se tinha feito passar por um islamista. Seria preciso falar árabe, pelo menos. Muçulmanos não radicais já tinham tentado entrar em células fundamentalistas, mas o facto de o terem feito é já de si olhado com suspeição pelos ocidentais, o que desvaloriza tudo o que possam ter descoberto. A impossibilidade de comunicação entre os dois mundos é quase total. Mas Salas encontrou um precursor.

O espanhol Domingo Badía nasceu em 1767. Em Córdova, trabalhou como administrador da Real Venta de Tabacos e escreveu livros científicos. Aos 30 anos, propôs a Manuel Godoy, primeiro-ministro de Carlos VI, infiltrar-se nos países árabes, sob uma falsa identidade muçulmana, para espiar e desestabilizar os potenciais inimigos da coroa espanhola. Imaginou, por exemplo, um plano para unir os vários adversários do Sultão de Marrocos, com o propósito de lhe usurpar o poder. Para isso, Badía aprendeu árabe e criou uma personagem fictícia, Ali Bey, a quem atribuiu um passado e uma ascendência. Com um disfarce bem preparado, atravessou Gibraltar e viveu em Marrocos, na Líbia, no Egipto, na Arábia, na Palestina, na Síria, na Turquia. Foi o primeiro espião europeu Meca. Escreveu um livro, Voyages d’Ali Bey en Afrique et en Asie pendant les Années 1803, 1806 et 1807”, e acabou por morrer envenenado, depois de descoberto.
Ali Bey foi o modelo de Salas.Também este percebeu, ao ler o livro, que uma infiltração no mundo muçulmano exigia um disfarce completo. Ao contrario do que tinha acontecido nas investigações anteriores, para esta seria necessário criar uma personage desde a nascença. Salas começou olhar para o Sara Ocidental. Dir-seia oriundo da antiga colónia española ocupada seu hipótese tinha inconvenientes. Depois dos atentados de 11 de Março, havia muitos polícias espanhóis a tentar infiltrar-se nas células islamistas. Por outro lado, um elemento da Frente Polisário não seria bem-vindo em Marrocos, um dos países onde Salas suspeitava haver terroristas.

Desistiu de ser saraui e, após ponderar várias possibilidades, optou por ser palestiniano. Inventou um nome: Muhammad Ali Tovar Abdallah. E inventou uma história: nasceu na Venezuela, embora a mãe e os avós fossem palestinianos. Fugiram da ocupação israelita para se instalarem na Venezuela comunista dos anos 60. Foi lá que conheceram a família do pai de Muhammad Abdallah, que era marxista e simpatizante da guerrilha. Mas que se converteria ao islão para poder casar com a mãe. Esta morreria no parto de Muhammad, que o pai não deixaria de culpar pela tragédia. Isto explica a infância rebelde de Muhammad. Seria o avô palestiniano a ensinar- lhe a língua árabe, os rituais do islão e o ódio aos israelitas. Nos finais dos anos 70, cai o Presidente Carlos Andrés Pérez, lançando na clandestinidade os comunistas como o pai de Muhammad, até à chegada de Hugo Chávez ao poder em Caracas. A família Abdallah foge para Espanha.
Muhammad foi um estudante rebelde, cheio de conflitos de personalidade entre a herança comunista do pai e a educação muçulmana dos avós maternos. Tornou-se voluntário de organizações humanitárias em África e no Médio Oriente. E voltou à Palestina, onde, em Yinin, conheceu a esposa, Dalal. Mas o pai dela, membro do Hamas, não aprovava a relação,
conhecendo os vínculos do pai de Muhammad à Fatah, de Yasser Arafat. Viveram por isso um amor clandestino. Dalal engravidou, mas o bebé não chegaria a nascer. A 9 de Março de 2004 uma patrulha israelita entrou em território palestiniano e, na troca de tiros com a resistência, uma bala perdida entrou pela janela e matou Dalal e Aiman, o primeiro filho de Muhammad. Este decidiu, nesse dia, tornar-se mujahid.
Para dar credibilidade à personagem, Antonio Salas pediu a uma amiga prostituta, que conhecera na infiltração anterior, que se deixasse fotografar com ele em Yinin, na Palestina. Juntou ao álbum pessoal imagens suas em várias idades, em cenários de países árabes e casas muçulmanas, umas reais, outras montadas em computador. Inscreveu-se em cursos de língua árabe e de terrorismo. Frequentou solários e comeu cenouras todos os dias, para tornar a pele mais escura. Converteu-se ao islão, aprendeu a fazer a oração e todos os ritos, e tomou como tarefa pessoal copiar o Corão, em árabe, para um caderno. Por fim, submeteu-se à circuncisão.
Desinformação
No café do aeroporto de Madrid, Antonio mostra o álbum de fotografias, que trazia sempre na mochila, ao lado do pequeno Corão manuscrito. “Era isto que dava consistência à mina personagem, quando o mostrava aos amigos, ou quando era revistado nas fronteiras”, diz. “E era também o que me dava autoconfiança”. Não bastava parecer Muhammad. Era preciso ser Muhammad. Para não correr riscos, e para sentir o que sente realmente um terrorista islamista. “Os jornalistas ocidentais não se dão ao trabalho de entender o islão”, diz Salas. “Por comodismo, consultam fontes como a Wikipédia ou o Google. Escrevem o que lêem lá, e depois outros jornalistas reproduzem o que estes escrevem. Os políticos, ou quem quer que esteja interessado em manipular, sabe que as coisas funcionam assim, por isso usam o Google e a Wikipédia para veicular o que lhes convém. É muito fácil. A Al- Qaeda da ilha Margarita é um exemplo disto”.
Vários jornalistas escreveram, em diferentes jornais do mundo, que existía uma célula da Al-Qaeda na ilha venezuelana de Margarita. Alguns canais de televisão mostraram imagens de um “campo de treino”, com árabes armados fazendo exercícios num cenário do Caribe. Salas, aliás Muhammad, foi lá investigar. Fez-se passar por adepto de Bin Laden, para contactar com os colegas locais. Mas não encontrou nenhum. Localizou, sim, o “campo de treino”, que afinal era uma coutada de caça onde os jornalistas ocidentais tinham filmado um grupo de libaneses a dar tiros aos coelhos, com as suas caçadeiras. Os libaneses, ainda por cima, eram cristãos maronitas. “O único terrorista islâmico da ilha Margarita chamava-se Muhammad Abdallah. A Al-Qaeda-Venezuela era eu”. E tão convincentemente o foi que os terroristas tupamaros revolucionários o tentaram raptar, e depois matar, convencidos de que ele andava na Venezuela a recrutar operacionais para a Al-Qaeda.
Se os jornalistas ocidentais não informam sobre o islão, é normal que os cidadãos comuns desenvolvam preconceitos em relação aos muçulmanos. Muito parecidos, aliás, com os que os muçulmanos têm sobre o Ocidente. “É fascinante ouvir as conversas, nas mesquitas, dos muçulmanos a respeito de nós. Dizem: são sujos, racistas, não respeitam as mulheres. Praticam violência doméstica, os padres são pedófilos”. Tal como os ocidentais pensam que os muçulmanos são todos violentos, terroristas e fanáticos, e oprimem as mulheres. O próprio Antonio Salas tinha estes preconceitos, e isso reflectiu-se nos primeiros esboços do seu disfarce. Depois descobriu, por exemplo, que, na sua maior parte, os muçulmanos não são muito religiosos. E que a maioria dos terroristas, ou dos mártires, não o é pela religião, mas sim por questões territoriais ou políticas, como a ocupação israelita de Gaza e da Cisjordânia, ou a ocupação americana do Iraque. A prova disto é que muitos dos terroristas árabes mais violentos nem são muçulmanos. Em muitos casos são cristãos. “A religião pode dar uma ajuda, mas não é o motivo da luta, do suicídio. Podemos fazer uma comparação com os guerrilheiros do IRA, na Irlanda. Os que matavam iam à igreja. Mas não se pode dizer que matavam pela Bíblia. Matavam pela sua terra. Até os do Ku Klux Klan lêem a Bíblia. Mas não é por causa disso que são racistas”.
O erotismo das armas
Durante os seus anos de infiltração, Salas andou pela Palestina e por Israel, pela Síria e pelo Egipto, pelo Magrebe, pela Venezuela. Aqui, ganhou a confiança de vários guerrilheiros muçulmanos e outros tantos marxistas. Para isso, fê-los crer que era também um guerrilheiro, perito no manejo de armas de guerra. Fez saber que andava à procura de treino militar sério, para poder envolver-se em acções terroristas na Europa e no Médio Oriente. Para ter um pretexto de acesso às figuras mais importantes, dizia-se jornalista de “sites” e jornais militantes. Aos poucos, tornou-se ele próprio uma personalidade conhecida e influente nos meios terroristas internacionais. Por fim, alcançou um dos seus objectivos mais ambiciosos: conhecer Carlos, o Chacal.
Começou por contactar um irmão, na Venezuela. Depois teve acesso ao arquivo daquele que foi o terrorista mais conhecido do mundo, até ter sido superado por Bin Laden. Organizou um “site” de apoio a Carlos. Um dia, recebeu um telefonema do próprio Chacal, da prisão onde está detidetido, em França. Depois dessa, tiveram várias outras longas conversas. Ilich Ramírez Sánchez, conhecido como Carlos, o Chacal, precisava de um “webmaster”, um porta-voz, um confidente, um amigo. Muhammad Abdallah tornou-se tudo isso. Falava com ele diariamente, veiculava as suas mensagens através do blogue (ilichramirez.blogspot.com, que ainda pode ser consultado), punha-o a falar em reuniões e congressos, da prisão, através do seu telemóvel, contactava antigos companheiros, mobilizando-os para acções. Tudo isto sem que os seus actos pudessem, alguma vez, configurar a prática de um crime – são esses os limites da acção de António Salas nas infiltrações que protagoniza, sob pena de todas as provas que recolher não serem válidas em tribunal.

Carlos começou por ser um guerrilheiro comunista. Só mais tarde se converteu ao islão, para combater ao lado da Frente Popular de Libertação da Palestina, a facção mais radical da Organização de Libertação da Palestina (OLP), mas sem que, nos intervalos, deixasse de dar treino a guerrilheiros da ETA. Muhammad/Salas descobriu, além disso, que ele manteve contactos e simpatia com grupos fascistas. Por causa disto, Carlos é geralmente considerado um mercenário. Salas não ficou com a mesma opinião. Para ele, o Chacal é igual a tantos outros terroristas: a única causa que o move é o poder e a paixão das armas. Esse foi aliás um dos objectos da sua investigação: como se faz um terrorista. “No início, Carlos era um idealista. Qualquer rapaz como ele, com 16 anos, que conhecesse a situação na Palestina, pegava em armas. E Carlos nunca foi um teórico, como Bin Laden. Era um homem de acção. Viveu o Setembro negro, embriagou-se com a causa palestiniana. Mas depois tornouse um profissional. É tão mercenário como o são os membros da ETA ou das FARC. São todos profissionais”. Entre eles, incluindo os nazis, não há grandes diferenças ideológicas, considera Salas. “O que há em comum são as armas. O erotismo das armas. Eu próprio já senti isso. Ter uma arma, montá-la e desmontá-la, provoca uma estranha sensação de poder. E se os teus chefes, ou uma pretensa ideologia, te dizem que a podes usar legitimamente, é irresistível. Tudo o resto são justificações e desculpas. O que custa é matar a primeira vez. É mais difícil matar por um ideal do que morrer por um ideal. Mas depois da primeira vez o terrorista ou se suicida ou se transforma. E já é capaz de fazer qualquer coisa.”
Olhando para Salas, dificilmente se imagina que tenha usado uma arma. Mas a verdade é que o seu discurso é menos o de um jornalista e mais o de um terrorista, ou de um ex-terrorista. Fala não do que lhe contaram, ou do que pesquisou, mas do que sentiu. “Ser terrorista é uma profissão. É uma forma de vida emocionante. Há o erotismo da violência. O código dos heróis. A violência pode ser uma modalidade de socialização”. Para muitos jovens que não têm outra forma de afirmação, ou de poder, nos seus países, esta é uma via de integração. A aquisição, rápida, fácil e eficaz, de um papel social. A pouca importância das ideologias explica por sua vez porque é que os terroristas de diferentes correntes estão todos em contacto uns com os outros, sejam marxistas ou islamistas, de direita ou de esquerda.
Sempre foi assim, desde os anos 70, diz Salas. “Nessa altura estavam todos em contacto uns com os outros: ETA,Brigadas Vermelhas, B aader-Meinhof, OLP. A esquerda sempre sentiu simpatía pela causa palestiniana. Hoje é igual. E havia, nessa altura, tanto terrorismo como agora, ou mais”. A colaboração entre os terroristas tem motivações pragmáticas. “O terrorismo a sério é muito caro. É preciso comprar armas e munições, ter acesso a tecnologia. Por isso, os terroristas têm de colaborar, por uma questão de logística. São companheiros de ofício. Os vendedores são os mesmos, e são, eles próprios, terroristas. A mim, propuseram-me traficar armas. Há gente que vive disto, há gente que ganha muito dinheiro. E estão todos no mesmo mercado”.
Internacional terrorista
Após uma longa espera, Muhammad foi finalmente convidado a participar num campo de treino para terroristas, na Venezuela. Era organizado por tupamaros e guerrilheiros bolivarianos apoiantes de Chávez, mas não era um campo de terrorismo da responsabilidade directa do Presidente, explica Salas, que não recolheu qualquer prova de que Caracas apoie directamente o terrorismo internacional. Mas o mais interessante nesse campo, onde se aprendia a lidar com armas de guerra, explosivos e tácticas de guerrilha, era a heterogeneidade nacional, étnica e ideológica dos “alunos”. Desde membros da ETA a gente do Hamas e do Hezbollah, passando pelos zapatistas e guerrilheiros das FARC e do ELN colombianos, havia de tudo. Menos a Al-Qaeda. A organização de Bin Laden, aliás, permaneceu um mistério para Muhammad, tal como o é para muitos dos chamados terroristas islâmicos. Alguns afirmam que não existe, e que os atentados do 11 de Setembro foram obra da CIA. Outros dizem que passou a existir desde esses atentados. Organizações que se formaram espontaneamente em vários lugares pediram então adesão à Al-Qaeda. Foi o caso do jordano Al-Zarqaui, o “Decapitador de Bagdad”.

O Iraque, aliás, tornou-se o lugar ideal para a Al-Qaeda, porque seria lógico que mujahidin de todo o mundo ali afluíssem, para combater a ocupação americana. “Foi o que aconteceu no Afeganistão, quando foi atacado pelos soviéticos. Vieram revolucionários de todo o mundo, para ajudar. Os talibãs funcionaram como aglutinadores de toda essa gente. Foi também o que aconteceu em Espanha durante a Guerra Civil”. Mas, segundo Salas, o plano de Bin Laden para o Iraque falhou, desde 2007, porque o único objectivo dos guerrilheiros é combater o ocupante, não formar um exército mundial, de motivação religiosa. A alternativa, para os líderes da Al-Qaeda, afigurou-se ser o Magrebe. É de lá que se devem esperar as próximas iniciativas terroristas, cujo objectivo será a Europa.
Com o descrédito do marxismo, o islão, percebeu Muhammad Abdallah, tornou-se um ambiente ideológico apetecível para os terroristas contemporâneos. “O islão é muito social, muito comunista”, diz ele. “Além disso, no existe camaradagem e disciplina, tal como imagino que seja a atmosfera num quartel. É preciso rezar cinco vezes por dia, cumprir uma série de regras. Há uma semelhança com a vida militar. E no Corão há uma certa belicidade. É um livro muito viril. Jesus era carpinteiro, mas Maomé era pastor. Quando foi de Medina para Meca começou logo uma guerra. No ‘Diário de um Skin’ incluí um capítulo sobre as relações dos ‘skins’ com o islão. Era uma análise superficial, pensei que a sua proximidade se devia apenas ao ódio comum aos judeus. Mas é mais profundo do que isso. O islão é muito marcial”.
De Meca à Bolívia
As conclusões de Antonio Salas são intrigantes e constituem inestimável matéria de reflexão, embora sejam tão discutíveis quanto os meios que usou para as alcançar. A infiltração como método jornalístico só é éticamente admissível quando reunidas cumulativamente duas circunstâncias: que o assunto seja de interesse vital, e que não haja outra forma de o investigar. Nenhuma delas parece estar em causa, quer no caso do terrorismo islâmico, quer nos dos “skins” ou do tráfico de mulheres. Mas a questão talvez seja outra: era necessário converter-se realmente ao islão?
Uma vez, quando Muhammad participava, na Suécia, num encontró mundial de esquerdistas radicais, um dos participantes, José Sánchez, conhecido como Negro Cheo, começou a desconfiar dele. Por alguma razão, ou por simples capricho, suspeitava de que não era um verdadeiro muçulmano. A certa altura, à hora do almoço, na casa onde ambos estavam
hospedados, em Uppsala, o Negro Cheo perguntou, à queima-roupa: “Ouve, palestiniano. Para que lado fica Meca?” Muhammad apontou a direcção, sem hesitar. Sabia-a porque, logo pela manhã, sozinho no seu quarto, usara a bússola para conhecer a posição em que deveria orar. A pergunta do Negro Cheo não fora inocente. Se Muhammad não fosse um verdadeiro muçulmano, teria sido desmascarado. Mas ele era. Fizera as suas orações pela manhã, mesmo sem que ninguém estivesse lá para ver.

Há outra questão pertinente quanto a este tipo de infiltração: quando deve ela acabar? Seis anos depois de a ter iniciado, Muhammad estava finalmente na pista de Bin Laden. Era já um terrorista afamado e respeitado, pelo que os contactos seriam cada vez mais fáceis. Mas aconteceu que vários companheiros próximos foram assassinados na Venezuela. Um deles, Eduardo Rózsa Flores, íntimo do Chaal, foi abatido a tiro pela polícia, a 17 de Abril de 2009, em Santa Cruz, na Bolívia, alegadamente por se preparar para matar o Presidente da República. Dias antes, Eduardo concedera uma entrevista a Muhammad, que a publicara no blogue de Carlos. O jornalista infiltrado tornava-se assim na única pista (e em eventual cúmplice) na operação para assassinar Evo Morales. Duas semanas depois, o velho Seat Ibiza de Muhammad explodia com uma bomba. Para Antonio Salas, era a altura de parar.
Mal o livro foi publicado, algumas das suas personagens foram presas, incluindo José Sanchez, o Negro Cheo. Talvez para ele não tenha sido grande surpresa. Mas o que terá sentido Carlos, o Chacal, na sua cela de alta segurança, ao ver que, no seu blogue, ese glorioso fórum da revolução mundial, o último post é um anúncio ao livro de Antonio Salas, O Palestiniano?


Lo he traducido al castellano
Enviado por mcappleadmin el Mié, 26/01/2011 - 04:47.Lo he traducido al castellano con mi super conocimiento de la léngua portuguesa...O.o Para la gente no es tan masoca como yo...